Muhammad Zakariya Ayyoub al-Matouq tem um ano e meio e passou de pesar nove para seis quilos nos últimos meses. O bebé foi fotografado por Ahmed al-Arini, que pretendia "mostrar ao resto do mundo a fome extrema" que se abate sobre a Faixa de Gaza.
O fotógrafo contou à BBC que encontrou Muhammad e a mãe numa tenda "vazia" – exceto por "um pequeno fogão". "Parecia um túmulo", assinalou.
Nas imagens, às quais poderá aceder na galeria acima (mas podem ferir a suscetibilidade dos leitores mais sensíveis), o menino enverga apenas um saco de plástico, devido à falta de ajuda humanitária, que fez o preço das fraldas disparar. O homem detalhou ainda que Muhammad não teve acesso a leite materno, leite em pó ou vitaminas.
"Tirei estas fotografias porque queria mostrar ao resto do mundo a fome extrema que bebés e crianças estão a sofrer na Faixa de Gaza. […] Fi-lo durante algum tempo, porque tinha de parar após cada fotografia para respirar fundo", lamentou.
Saliente-se que, de acordo com a Médicos Sem Fronteiras (MSF), um quarto das crianças dos seis meses aos cinco anos sofrem de malnutrição, bem como as mulheres grávidas e lactantes examinadas na semana passada nas instalações da organização em Gaza.
A entidade sublinhou que o número de pessoas malnutridas quadruplicou desde 18 de maio, sendo que a taxa de malnutrição grave entre as crianças com menos de cinco anos triplicou nas últimas duas semanas.
"Esta é uma fome deliberada, causada pelas autoridades israelitas no âmbito da campanha genocida em curso. Deixar passar fome, matar e ferir pessoas que procuram desesperadamente ajuda é inaceitável", denunciou.
Na terça-feira, a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou o exército israelita de matar mais de mil pessoas em busca de ajuda humanitária desde o final de maio, a grande maioria delas perto de centros geridos por esta fundação, que conta também com o apoio dos Estados Unidos.
Aliás, as equipas médicas da MSF e do Ministério da Saúde na Clínica Sheikh Radwan, no norte de Gaza, trataram 122 pessoas com ferimentos de bala enquanto aguardavam a distribuição de farinha, e 46 já estavam mortas à chegada, a 20 de julho.
Os níveis de subnutrição em Gaza agravaram-se em março com o encerramento total dos pontos de acesso, durante o qual não foi permitida a entrada de alimentos, medicamentos e combustível.
Israel acusa o Hamas de se apropriar da ajuda humanitária que entrava no território através de agências da ONU para seu uso e venda à população. Acusa ainda a ONU de ser conivente com o movimento islamita palestiniano, designado terrorista por Israel, Estados Unidos, União Europeia, e diversos países.
Embora Israel tenha reaberto parcialmente as travessias no final de maio, o fluxo de ajuda continua a ser muito limitado e a sua distribuição em Gaza mantém-se de alto risco.
Num novo balanço, o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, informou na quinta-feira que registou 59.587 mortos e 143.498 feridos. Nessa contagem incluem-se pelo menos 115 mortos por fome ou desnutrição desde o início da ofensiva israelita, em outubro de 2023.
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